Terça-feira, 27 de Março de 2007

Saudade Dói - Miguel Falabella



Em alguma outra vida, devemos ter feito algo de muito grave, para
sentirmos tanta saudade... Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a
língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra
mais.
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que
nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de
quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se
verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade,
mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo,
mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num
ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa
daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista
como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela
mania de estar sempre ocupada, se ele tem assistido as
aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e
encontrar a página do Diário Oficial, se ela aprendeu
a estacionar entre dois carros, se ele continua
preferindo Malzebier, se ela continua preferindo suco,
se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos
apertados, se ela continua dançando daquele jeitinho
enlouquecedor, se ele continua cantando tão bem, se
ela continua detestando o MC Donald's, se ele continua
amando, se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!!!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais
compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe
cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas
diante de uma música, não saber como vencer a dor de
um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ela está com outro,
e ao mesmo tempo querer.
E perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro,
se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama,
e ainda assim doer.
Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e
o que você, provavelmente, está sentindo agora depois
que acabou de ler...



publicado por daidjc às 22:37
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